hoje foi meu primeiro dia de no-poo. para ser mais específica, eu decidi finalmente me entregar à técnica do co-wash. nada muito elaborado, simplão mesmo. como a grana era curta, o aspecto mais incisivo e prático do processo, e com o melhor custo-benefício, foi o que me convenceu de vez.
depois de me versar um pouco nas alquimias cujo latim a internet tem oferecido em profusão, depois de ler sites e sites, depois de catar resenha e resenha, optei pelo que seria a minha alma gêmea livre de silicones e parabenos e sulfatos. não participei de grupos, não aderi a cronograma capilar, nada disso. não que me ache superior. eu simplesmente tenho pressa. de modo que artigos de blogs devorados nas últimas semanas e conselhos de amigas que vinham se acumulando nos últimos séculos me deram o gás necessário para passar nesse vestibular capilar. e me lancei ao desconhecido.
é claro, não pude deixar de levar em consideração um certo senso estético na hora da escolha: a embalagem tinha de ser lindinha, a coisa tinha que se vender bem, e o nome do produto inspirar confiança. fui no curyly wurly, da lola, de que eu já ouvira falar tanto, embora com algum ceticismo viesse acompanhando todas as sugestões de amigas e o furor midiático ao redor dos belos produtos da marca. foi difícil me livrar do niilismo capilar, tanto por preguiça de aprender um modo novo de lidar com meus cabelos quanto pela outra preguiça, de ordem antropológica, cultural, a saber -- a despaciência para com determinadas modas que envolvem muita militância e comprometimento e que faz prosélitos numa velocidade assustadora, e neste caso dizia respeito à lola.
mas, bem, aqui estou, besuntada em curly wurly, e esperando para ver o que é que meus bebelos depois de secarem estarão prontos para me mostrar. aguardo o que vier. fui avisada. pode dar ruim da primeira vez. livre de silicones e tantos outros maquilantes e venenos, a primeira aparência das madeixas pode ser um tanto pavorosa, frustrante, avisaram-me. estou pronta. mas li tudo tão bem e segui todos os passos de tal forma, que agora a minha confiança se alçou ao ponto de que não importam os resultados primários, eu me sentirei uma espécie de rainha das composições dos produtos de limpeza e hidratação, ph.d. em cachos lindos. o futuro que me aguarde. usei pela última vez o shampoo normal com sulfato, para livrar os fios dos vestígios dos petrolatos condicionantes, em seguida fiz minha boa lavagem com condicionador, depois condicionei de fato e, enfim, esperemos. sequei com uma blusa de algodão, porque isto também está previsto na manutenção dos fios lindos.
II
a minha história é triste e dramática como todas as histórias de todas as meninas que nasceram nos anos noventa e viveram seus primeiros anos de descobertas e amadurecimento na década inicial deste segundo milênio, triste, triste história, sobretudo se a fibra capilar dessas meninas ia do crespo ao enroladinho e logo encontrou a censura do mundo.
parece simples ou trivial dizer que hoje eu fiz o primeiro co-wash, que invento um cataclismo, um retumbe desnecessário. não é. porque antes deste dia veio ainda a aceitação de que eu deveria, pela minha própria segurança e saúde, libertar meus cachos finalmente, deixar a prancha de cerâmica para lá. eu há muito que os aceitara, de algum modo, para mim mesma, mas eles viviam em prisão domiciliar. eu os queria como eram, mas o mundo ainda não estava preparado para eles. tive de me convencer que se danasse o mundo. ele teria de suportar uma encaracolada a mais sobre seu globo terrestre.
então, como quem pula da prancha, eu simplesmente acordei comigo mesma que a revolução pelo que esperam as gerações futuras, e mesmo a nossa, ela não seria alisada, e que eu precisava de uma vez por todas deixar de queimar meu cabelo. aí abri mão como quem nem sabe para onde vai ou por onde anda dos meus dez anos ininterruptos de chapinha. ê, camaradas: estes bebelos aqui não sabiam o que era respirar o ar natural da vida desde 2006.
cabelos desgrenhados e aparência incomodante: veio daí uma avalanche de inseguranças... se alguém simplesmente estivesse por perto para me dizer que era apenas eu crescendo. que era apenas adolescência. que era apenas hormônio. que depois o desengonçado se ajeitaria. ah, se. mas eu passei por tudo isso escapando mais ou menos da moda emo, do from uk mais tarde, do leviano culto à bulimia, para então unicamente vir penar neste purgatório das inseguranças que se afogaram então no alisamento dos bebelos, porque não dava para escapar afinal de tudo.
e foi mais ou menos por aí que minha mãe me encontrou no que parecia um tal estado de calamidade para os parâmetros correntes da vaidade, que decidiu, a cada banho meu, fazer uma chapinha. alisei os cabelos por esse tempo. ganhei minha própria chapinha depois, ritual de iniciação ou de amadurecimento que toda menina reprimida ou combatida em seu encaracolamento passa também. não é culpa das mães: elas querem nos ver felizes, aceitas, bonitas. não sabem muita vez como dizer ou fazer o que a longo prazo será melhor: aceite-se!
aprendi a fazer minha própria chapinha, prescindi mamãe, chegou este dia. e assim segui. e desde então somam-se dez anos. houve um momento em que larguei o alisante. passei pela transição dos cabelos de química a sem química muito antes de decidir assumir de fato os cachos, porque permaneci pranchando. torei o negócio bem curto, deixei crescer de novo, nunca mais alisei, assim como minha mãe também um dia abandonou o henê, ah, famoso henê, nostálgico, e mais tarde abandonou também os alisantes todos, e ficamos só com a chapinha, eu e ela, e ela até hoje permanece pranchando. eu já me livrei, posso dizer. hoje. posso dizer.
é dessa trajetória então que eu venho. de dez anos, desde os 12 até os 22, sem saber de fato como é ser 24h por dia encaracoladita. e agora meus cabelos estão entregues à própria sorte. e ao co-wash também. veremos. sigamos.
III
eu não tinha muito dinheiro: tal qual toda universitária que começou a ser oficialmente bolsista há pouco tempo, e ainda nem tem muita certeza desse status, vai saber, já que dinheiro na conta nem o azul dos olhos. mas aguardo. e enquanto o dia cinco não chega, e a gente não se alegra de ver que o governo paga pelos nossas boas pesquisas científicas, foi por não ter muito dinheiro que eu decidi comprar o máximo de benefícios num mínimo de gastos e se pudesse em um produto só, tava valendo. enquanto $ não vem e a gente come um tablete de paçoquita no almoço e torce pra ainda dar tempo de pegar a janta no r.u., sonhamos ainda com as fronhas de seda, que serão um dia compradas para, seguindo instruções de minhas recentes leituras nas liturgias de co-wash no-poo lo-poo, dar o trato final e lindinho, sem frizzar nem assaranhar, a esta coroa brilhante a que chamo bebelos.
IV
tem sido um tempo de tantas mudanças. hoje mesmo eu quis mudar minha cara, meu rosto inteiro. e sempre me lembro de ana cristina c quando penso estas coisas. descobri ainda que um velho amor lançou mais um livro de poemas, e isso não me diz respeito e me entristece, o homem, a vida, o grisalho do mundo das dores de sempre. e mais: descoberto tenho que cachos são tão temperamentais quanto os geminianos com ascendente em gêmeos. mutáveis, moventes. peixes nadam na neblina. também tem essa de enxugar os cabelos com uma blusa de algodão. e não passei nem nada depois, porque a grana é curta e os recursos são poucos. façamos, como mcgyver, desse produto único o nosso messias particular, salvaguarda. de resto, eu continuo sendo eu, deitada na noite, olhos muito abertos enquanto as horas correm, nuazinha na cama, banhada, despida, porque é assim que deus nos quer na intimidade de nosso lar e de uma solidão sem fundo chegante, e, para além disso, mais uma vez me dou conta de que administrar dinheiro não está para mim, mas ainda posso tirar fotos e brincar com óculos como se eu mesma fosse essa faceta mais lúdica de paul ricoeur.
e agora enquanto toca sacrifice, do elton john. esta é a trilha sonora de minha jornada.
querido diário,
tu ainda me matas.